24.7.07

Auto-elogio rasca

Nunca gostei desta treta das conversas de gerações, quem é que me elegeu para falar em nome de milhares de tipos que pouco ou nada têm a ver comigo.
Mas a verdade é que já enerva.
Sendo eu um dos putos sem barba daquela manif contra as provas globais, que levou o Vicente Jorge a inaugurar a expressão “geração rasca”, a verdade é que talvez essa mesma expressão se me/nos tenha colado à pele de tal forma que entre aqueles que estávamos ali e muitos outros que à noite, enquanto bebiam um copinho de leite com chocolate preparado pela mãezinha, nos viram ali, criámos e fomos criando uma ideia de “geração” e de rasca ou anti-rasca que nos foi aproximando/afastando.
Vem isto a propósito do “eduquês”, e do movimento “anti-eduquês” que reúne personalidades tão díspares como o José Manuel Fernandes, ou o Carlos Fiolhais, entre outros. Une-os este regresso a uma mítica educação de bafio salazarista onde para além da importância da disciplina, e do respeito pela autoridade, há uma vontade declarada, imperativa, de retirar todo o gozo e prazer da aprendizagem para ficar uma seca, para ficar um castigo (como se calhar foi para eles.)

A estes digníssimos definidores dos requisitos cognitivos que comporiam essa sinistra ideia de cidadania coisificada, apetece-me apenas dizer-lhes que sim, que sou da geração rasca.
Sou o exemplo máximo do “eduquês”, educado no básico no colégio pseudoesquerdista pequeno-burguês da moda para depois fazer o secundário, no inicio dos 90, em plena vaga de difusão do eduquês pelo ensino oficial, nunca tive de decorar a tabuada e sempre dei erros ortográficos.
Pois é, para os meus professores sempre foi mais importante que eu escrevesse com gosto e liberdade do que escrever correctinho. Se é uma dificuldade aos 29 anos ainda dar erros ortográficos, é , mas é a troca que se faz para saber que escrevo livremente e com prazer.
Nunca tive de decorar a tabuada mas aprendi com liberdade a mexer nos números como se fossem bonecos, aprendi a perceber que a matemática existia não apenas para fazer continhas. Ainda hoje não percebo bem o que significa a multiplicação para aqueles como o Zé Manel que decoraram a tabuada, é como se se metessem os números lá dentro e os deitassem cá para fora sem circuito neuronal alternativo, sem qualquer criatividade, provavelmente sem qualquer gozo.

Ora para mim, e para a geração rasca do dito eduquês, as coisas nunca foram dadas, pelo contrário o que nos era pedido era que percebêssemos, ou que fossemos percebendo, o que era, ou ia sendo, a matemática, de resto tínhamos de ir arranjando maneira de por nós próprios ir desenrascando as continhas. Foi assim que percebi que multiplicando qualquer numero par por 6, dividia esse numero ao meio e ficava com o primeiro algarismo, bastava acrescentar o numero inicial no fim (género 6X4=24), que multiplicar por 5 era acrescentar um 0 e dividir ao meio, e que a tabuada do nove saia com magia dos dedos das mão. Descobri sozinho que o mais difícil e tinha mesmo de ser decorado era 7X7 (que lá consegui enfiar que era 49). Aprendi a brincar com as equações o tempo que quisesse e que me apetecesse até que saísse um X, aprendi a usar livremente da matemática no que ela me servia de gozo, de prazer.

Vem isto a propósito do que provocou a última fúria do movimento anti-eduquês- os miúdos poderem brincar com máquinas de calcular no básico!! Não há duvida que assim já não vão decorar a tabuada, como eu nunca cheguei a decorar, mas também não vão passar pela experiência de andar ali às voltas para desenrascar os números. E então? Qual é o problema? Vão ter outras experiências, outros caminhos, outros desafios cognitivos. Porque é que têm de ser piores?
De resto não tenho dúvidas que os putos de hoje exercitam muito mais os neurónios a brincar com a máquina calculadora do que o Ze Manel e o Carlos a decorar as linhas de comboio entretanto desactivadas enquanto levavam no rabinho com as palmadinhas da autoridade.

Talvez seja isso que os fode, que possamos pensar e escrever livremente. Sem andar na linha.

3 comentários:

joao disse...

"Une-os este regresso a uma mítica educação de bafio salazarista onde para além da importância da disciplina, e do respeito pela autoridade, há uma vontade declarada, imperativa, de retirar todo o gozo e prazer da aprendizagem para ficar uma seca, para ficar um castigo"

Não, não é disso que se trata. O problema é que a aprendizagem não pode ser SEMPRE gozo e prazer. Há coisas chatas. Chatas mesmo, mas essenciais. E há coisas que se têm mesmo que fixar. O problema é fazer passar essa mensagem, que tudo pode ser feito com "gozo e prazer". Não é verdade, e estamos apenas a criar futuros adultos inadaptados. Tudo dá trabalho, e muito desse trabalho é chato. Desde nascer a arranjar namorada e, sobretudo, a mantê-la, a fazer a necessária sopinha pro jantar, etc.

E sim, aprecio que escreva livremente e ainda bem que foi estimulado para isso, mas não, não acho normal nem aceitável dar erros ortográficos. Mas não se preocupe, eu também dou. O que também não acho aceitável.

JPT

joao disse...

... e não é respeito pela autoridade, é respeito pelo outro. Seja quem for o outro. Mesmo que seja um subordinado. Mesmo que seja uma autoridade.

JPT

Luísa disse...

ainda não vi aqui um erro ortográfico. e vi livre pensamento.
os putos vão-lhes passar à frente, a toda a velocidade, de calculadora em punho. hehe!